Introdução V - Evolução artística

 Man In The Music: Introdução V "Evolução Artística"


EVOLUÇÃO ARTÍSTICA


Apesar da experimentação e evolução dele, porém, o conhecimento convencional, da maior parte da mídia e dos críticos musicais, por décadas, foi a de que Michael Jackson alcançou o auge artístico com Off The Wall e Thriller e tudo que veio em seguida se revelou um lento e constante declínio. No obituário de 2009, o New York Times se referiu à carreira dele, pós-Thriller, como “uma bizarra desintegração.” O que fez a obra dele tão “bizarra” nestes anos? Nada específico é mencionado, além da “bizarra vida privada” dele, equiparada à música ruim. Da mesma forma, na retrospectiva do Times, Josh Tyrangiel escreveu: “Dado o tumulto na vida pessoal dele, não é surpresa que os anos 90 tenha sido um período estéril para Jackson criativamente.” Tyrangiel não explica por que o tumulto pessoal tinha provido tanta fertilidade criativa para outros artistas, como Ray Charles, John Lennon e Kurt Cobain (entre milhares de outros), mas não a Jackson. Ele também não explica como a prolífica produção criatividade de Jackson durante aquela época – Jackson escreveu e gravou mais músicas e lançou mais álbuns e vioclipes nos anos noventa que nos anos oitenta – pode equivaler a um “período estéril”. O crítico musical John Pareles, pelo menos, ofereceu uma crítica mais superficialmente específica, dizendo que foi a perda da inocência de Jackson que levou a arte dele ao declínio. “A doçura básica que fez o senhor Jackson cativante, apesar das esquisitices dele, coagulou”, ele escreveu. Os critérios que fizeram o trabalho de Jackson ressoante, então, para Pareles é a “doçura”, embora ele não tente conciliar isso com as primeiras músicas liricamente perturbadoras como “Billie Jean” e “Wanna Be Startin’ Somethin’.” A expectativa de uma “doçura” eterna é algo mais que estranho, dado que conflito, raiva, agitação, protesto social e desilusões têm sido estimulo para algumas das músicas mais poderosas.


Uma séria avaliação de todA a obra de Jackson tem faltado aos críticos, que têm, frequentemente, recorrido a vagas generalizações, dispensas condescendentes e muito moralistas. A variedade do trabalho dele, como resultado é, frequentemente, tanto fundamentalmente malcaracterizada, quanto mal interpretada. Na verdade, contrariamente à maior parte das narrativas, uma análise mais fiel da carreira solo de Jackson revela uma extraordinária evolução artística. Um adequado paralelo, na verdade, são os Beatles, que, da mesma maneira, começaram cantando grandes músicas de amor, mas continuaram desafiando a si mesmos e ao público deles com novas músicas e arranjos, letras mais complexas e socialmente conscientes e delectus personae, que desafiaram os valores normativos e premissas do tempo deles. Igualmente, observa o critico cultural Armond White, “A carreira de Jackson, abrangendo desde uma adorável estrela mirim a um deslumbrante jovem adulto a um eterno-desconcertante conquistador do mundo, mostra uma imaginação inquietante. Ele empurra a cultura para frente, desafiando-a, enquanto ele também desafia a si mesmo. A natureza idiossincrática dele revelou enigma e fascínio, mas também atormentou o status quo. O que é muito irônico para um astro pop fazer.” O reconhecimento de White, no entanto, revelou ser exceção, não a regra. Enquanto muitos críticos, antes e agora, têm elogiado profusamente os Beatles pelo amadurecimento e transformação deles, Jackson tem sido, muitas vezes, caracterizado como um superficial caçador de recordes, que falhou em superar o sucesso comercial de Thriller, de alguma forma, validando a percepção de que a música perdeu o valor.


Mais recentemente, tal pensamento convencional está sendo reconsiderado, pois o público e os críticos, da mesma forma, voltam aos álbuns e vídeos – muitas vezes, no que se refere ao último trabalho dele, escutando-os pela primeira vez – e reavaliam o valor estético e cultural dele. O que a reavaliação deles tem revelado e, sem dúvida, continuará a revelar, é que, enquanto os números de vendas e impacto cultural nos Estados Unidos possam ter declinado, a riqueza, profundidade e arte, não. Alguém precisa olhar para a evocativa e poética, “Stranger In Moscow”, uma das mais poderosas expressões de alienação desde a “A Day in the Life”, dos Beatles, ou o principal trabalho pop gótico, “Is It Scary” que se tornou um espelho em uma acusação social ou o vídeo musical para “Black or White”, que mistura sátiras e idealismo, antes de desencadear no totalmente destemido (e artisticamente sofisticado) refrão.


Tal trabalho pode ter um mostruário diferente, uma versão menos alegre de Jackson, mas certamente não foi estéril, nem chato. “O que é interessante”, observa Milka Gilmore, da Rolling Stones, sobre este sempre esquecido período criativo, “é que esse foi... o tempo no qual Jackson fez uma das mais interessantes artes dele: uma das mais espirituosas, mais dolorosas, iradas e, de longe, mais politicamente explícitas e perturbadoras”.


Mas é um erro pensar que esses temas mais desafiadores somente emergiram mais tarde na carreira dele. Certamente, um dos maiores comentários sociais dele veio, mais acentuadamente direto, quando a carreira dele progrediu, particularmente em Dangerous, HIStory e Blod on the Dance Floor, mas a tensão sempre esteve lá. Como Jody Rosen da Slate escreveu: “Embora ele tivesse objetivo maior e mais amplo que qualquer outro pop star, antes ou depois – ele queria que cada pessoa no mundo comprasse os álbuns dele –, ele nunca se comprometeu. A música dele está mais estranha e mais sombria que nunca para alcançar o sucesso blockbuster; por comparação, Sinatra, Elvis, os Beatles e Madonna são modestos.”


Isso, é claro, não quer dizer que não houve também momentos de leveza. Mesmo nos últimos trabalhos dele houve ainda momentos de inalterada alegria, músicas que simplesmente fazem você querer dançar, como “You Rock My World”, músicas que capturam a essência de estar apaixonado, como o clássico retrô-soul, “Butterflies”, ou a pura alegria nostálgica de “Remember The Time”.


As declarações sociais de Jackson se tornaram mais afiadas e mais diretas enquanto a década progredia. Mas Jackson sempre acreditou que a música podia salvá-lo e, assim, ele poderia levar a audiência dele consigo. Portanto, em “Startin’ Something’” há um extraordinário final, no qual Jackson grita, “Eu sei que eu sou alguém!”, antes de, simbolicamente, se ligar a uma comunidade, com o coletivo grito africano: “ma ma se ma ma sa ma ma coo sa”. Do mesmo modo, em “Man in the Mirror”, amor egoísta é substituído por compaixão, criando uma identidade que está integrada com outros. É claro, nem todas as músicas fornecem esse tipo de conexão e transformação. Porém, era isso o que, Jackson acreditava, em princípio, a música podia realizar.


son forçou as radios, revistas e estações de televisão, como a MTV a, finalmente, abandonar o pretexto para a divisão ou a viabilidade mais fraca para o rock/R&B e abrir os portões da oportunidade para artistas negros. Houve, é claro, muitos outros artistas negros de sucesso antes de Jackson. Contudo, ninguém alcançou o estratosférico nível como Elvis Presley e os Beatles. Para muitos, simplesmente, parecia natural e inevitável que um artista branco fosse maior e melhor que um artista negro. Mas nos anos oitenta, Michael Jackson, finalmente, acabou com esse mito. Thriller não foi apenas o álbum mais vendido por um artista negro ou o melhor álbum da década; foi o álbum mais vendido, ponto. Maior que Elvis. Maior que os Beatles. Maior que os Stones. Para afro-americanos, portanto, foi uma enorme fonte de afirmação e realização. A música que eles inventavam estava, finalmente, sendo reconhecida como de alto nível. Como Greg Tate colocou: “Os negros amaram os progressos de Thriller, como se isso fosse a própria aríetes deles (contra) a apartheid”.


O sucesso dele, é claro, não era apenas significativo para afro-americanos. “Embora enraizado em experiências negras”, escreveu o crítico cultural Michael Ericson Dyson, “ele sentia que seria um crime limitar a música dele a uma raça, sexo, gênero, etnia, orientação sexual ou nacionalidade. A arte de Michael transcende todas as formas eu seres humanos tem pensado para se separarem e, assim, curou essas divisões, pelo menos, no instante em que estamos compartilhando a música dele”. Isso era uma universalidade sem fronteiras que Jackson sempre almejou: “Desde uma criança a uma pessoa velha”, ele explicou, “desde fazendeiros da Irlanda a uma dama que esfrega banheiros no Harlem... eu quero alcançar toda a demografia que eu posso, através de amor e alegria e a simplicidade da música”.


Isso é, na verdade, em grande parte, o que ele realizou.  Especialmente depois de Thriller, ele e a música dele foram abraçados em todo o mundo. “Michael é agora, muito simples, o maior astro da cultura pop universal”, escreveu a Rolling Stone, em 1984, “se não maior que Jesus, como John Lenon uma vez gabou para os Beatles, então maior que aquele grupo, ou qualquer outro ícone pop anterior”. Pelo início dos anos 90, os concertos dele foram vendidos desde a Alemanha ao Japão, da África do Sul à Austrália, Moscou e Praga. As músicas dele tocavam em todos os cantos do mundo. As letras das músicas dele eram mais bem conhecidas que os hinos nacionais.


Depois de Thriller, é claro, as coisas mudaram. Jackson permaneceu como o maior entretainer do mundo, mas se tornou incrivelmente polarizado. Michael Jackson sempre foi “diferente”; na verdade, as pessoas frequentemente se esquecem de como foi estranho que a mainstream América tenha, alguma vez, abraçado um homem que usava maquiagem, falava em voz aguda, vestia lantejoulas e vivia em uma miniatura da Disneyland. Enquanto os anos oitenta avançavam, porém, as excentricidades de Jackson se tornaram mais aparentes e pronunciadas, incluindo a “sempre-mudando” aparência física. Michael Jackson representava algo diferente e incomum; e americanos, em especial, tiveram dificuldade em processar isso. Ele foi estigmatizado como “esquisito” e “bizarro”. Pelo meio dos anos oitenta, o rótulo “Wacko Jacko” já tinha sido adotado.

 

Nos anos subsequentes, a dominação cultural de Jackson começou a declinar, pois a mídia e o público, cada vez mais, o marginalizavam. Cada história de tabloides, cada escândalo, cada aparição pública fizeram com que ele parecesse mais estranho e assustador. Ele era um estranho que, mesmo assim, continuava fascinando as pessoas. Mas aqueles anos também permitiram a ele um novo papel cultural: já diferente, ele foi duplamente marcado como o “outro” e, assim, milhões de pessoas no mundo, que não se encaixavam, por qualquer razão, identificaram-se com ele. Enquanto a mídia implacável o ridicularizava e o coisificava, os fãs o viam como uma vítima da cruel e insensível cultura de exploração. Michael Jackson, eles sentiam, era uma alma pura e frágil, como um herói Keats, “cujas realizações não podiam ser separadas da agonia, que foi “espiritualizada” pelo declínio dele e... simplesmente, muito frágil para suportar as pancadas do mundo”. Steven Spielberg, uma vez, o descreveu como um “filhote de cervo em uma floresta em chamas”. Jackson, ele mesmo, frequentemente reforçava esta personalidade delicada. Ele era o inocente homem-criança, sempre compensando pela infância perdida, o seráfico cantor, que recebia inspiração dos galhos da “arvore das dádivas” dele.


Mas enquanto os anos noventa avançavam, ele se tornou, cada vez mais, disposto a atacar de volta a sociedade que o desprezou. Ele foi o arquetípico artista mal compreendido: um gênio excêntrico perpetuamente em desacordo com o mundo em volta dele, comprometido com a visão criativa dele, independentemente das expectativas culturais. Ele também estava disposto a abraçar o lado sombrio do Romantismo – o Gótico – para expressar o horror, isolação e a ansiedade de ser um “monstro” em um mundo monstruoso. No filme dele, Ghosts, de 1997, ele fez o papel do estranho, incompreendido intruso, enquanto um cidadão de “Vale Normal” tentava mandá-lo para fora da cidade. Mas ele não agiu como uma mera vítima inocente. “Se você quer ver/Excêntricas extravagâncias”, ele canta, “Eu serei grotesco diante dos seus olhos.” Na faixa final de Invincible, ele, igualmente, ostenta a personalidade “monstruosa” dele, provocativamente dizendo “você deveria se sentir assustado por mim”.


Nas últimas duas décadas da vida dele, portanto, Jackson desempenhou uma função cultural menos convencional, mas ainda valiosa. Ele não era mais o adorado supertar; ele era o supertar que falava para os marginalizados, da perspectiva dos feridos e esquecidos. Músicas como “We’ve Had Enough” e “They Don’t Care About Us”, expressam uma identificação e solidariedade com os oprimidos. A primeira é uma antidesgaste, a segunda, um grito de fortalecimento por todos que tinham sofrido injustiças. Era uma voz em desacordo com o estado anterior, denunciando a mídia em “Tabloid Junkie”, gritando hinos apocalípticos como “Earth Song” ou narrativas de grande desespero como “Little Suzie”.


Pra a maioria da mídia e dos críticos, porém, esta importância cultural foi esquecida em favor de uma dispensa redutora. “Diferentemente dos Beatles”, observou Jay Cocks, do Times, “ (Jackson) teve uma vasta audiência, mas uma pequena consistência”. Em 1990, o renomado crítico musical Greil Marcus, famosamente, afirmou que Jackson foi a “primeira explosão pop a não ser julgada pela qualidade subjetiva da resposta que recebia, mas pelo número de transações comercias que isso provocou”. Ele foi, em outras palavras, uma distração, um fenômeno, um espetáculo com superficial ressonância. A arte e a influência dele, desse modo, foram facilmente reduzidas e racionalizadas. Elvis e os Beatles mudaram o mundo; Jackson foi apenas um artista comercial.



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