Capítulo 14 - Abertura e vulnerabilidade

 Honrando o Espírito de Criança - Capítulo 14 - "Abertura e Vulnerabilidade "


Nota: 


Tradução livre para divulgação de conteúdo sem fins lucrativos.

Destinada apenas para apreciação de fãs.

Sem Fins Lucrativos


HONRANDO O ESPÍRITO DE CRIANÇA


SHMULEY BOTEACH
Em conversas com MICHAEL JACKSON

ABERTURA E VULNERABILIDADE


“Eu amo como uma criança é tão honesta.”


SB: O que você parece estar descrevendo-me é que a criatividade envolve a liberdade. Ao contrário dos adultos, que têm de submeter-se a pressão, as crianças são realmente livres. Elas dizem o que querem. Fazem o que querem e não se intimidam. Os adultos são quase como prisioneiros. Encarceram-se nas restrições e expectativas sociais que lhes são impostas.


MJ: Sim, eles estão tentando ser o que a sociedade espera deles, e as crianças são apenas felizes, caprichosas e amam o divertimento.

Elas têm essa excitação, esse brilho em seus olhos. Já estive em situações em reuniões com grupo de advogados e às vezes, uma criança entraria na sala e eles continuariam falando. Fiz com que todos parassem e falassem: "Olá", ou mostrassem respeito, para fazer a criança se sentir especial. E os advogados não entendiam isso. Para mim, Deus exatamente entrava na sala e tínhamos que mostrar respeito.

Eu amo como uma criança é tão honesta. Se elas estão enciumadas, elas lhe dirão. Se elas estão zangadas com você, elas vão te dizer. . . "Você gosta dele mais do que de mim." Adultos não dirão isso. Eles vão ser vingativos e encontrar outra maneira de feri-lo por causa de seu ciúme.


SB: Eles de modo evidente escondem ou mascaram seu ciúme.


MJ: Sim. Sim. Simplesmente amo crianças, porque existe uma Divindade natural sobre elas. Elas adoram estar juntas. Uma criança que nunca conheceu a outra antes  será amiga em dois segundos e começarão a falar uma com a outra. Não se consegue adultos que façam isso. Se você pegar os bebês e colocá-los em uma cama e espalhá-los quando eles estão dormindo, dentro de uma hora, inconscientemente, em estado alfa, ou algo assim, eles vão encontrar uma maneira de se amontoarem. Filhotes fazem isto, gatinhos fazem isso e as crianças fazem isso. Elas encontram uma maneira. Elas acabam bem próximas umas das outras e isso é tão doce. Elas encontram umas as outras em seu sono. Mas nós, estamos ocupados tentando estabelecer barreiras e barricadas. "Você sente-se ali, e você sente-se lá." Essa é a parte triste, não é?


SB: As crianças não têm nenhum desses preconceitos, nenhuma dessas barreiras. Então, quando você encontra uma criança, você está dizendo, existe familiaridade imediata. Você não tem que trabalhar em amizade ou parentesco. Enquanto que com os adultos, inicialmente há um pouco de constrangimento e tem que começar a confiar um no outro porque o estado natural é a desconfiança.


MJ: As crianças simplesmente se abrem comigo.


SB: Mas e se alguém lhe dissesse que isso não é real, que o mundo é um lugar horrível e você tem que sair ou porque Neverland é uma ilusão, um mundo de fantasia? E se alguém dissesse: "Michael, eu concordo com tudo que você diz sobre as crianças, mas isto simplesmente não é real. Depois de um tempo você só tem que se acostumar com o fato de que o mundo é horrível e as pessoas são más. E se você é uma criança, isso significa que está muito mais vulnerável e desprotegido e somente estará se abrindo para a possibilidade de dor,  ataques e ferimentos." Você lamenta o estado pueril que conservou? Um cara que cresce, torna-se um guerreiro, ele se protege, se arma. Mas você decidiu não fazer isso. Você decidiu estar em torno de crianças e você decidiu proteger a sua criança interior. Você se arrepende por isso?


MJ: Eu me arrepender de ser do jeito que sou? Não, jamais poderia.


SB: Ainda que diga que é mal interpretado por isso? Apesar das pessoas poderem pensar que você é estranho?


MJ: Há tanta beleza e glória. Vejo isso em minha criação, no que faço. Todas as ideias começam a fluir para a minha música e evocam grandes pensamentos e tudo isso vem disso.


SB: Você diz: "Eu preciso das crianças. Antes de um show, preciso das crianças.". Você não fica receoso ao usar a palavra "necessidade". Porém, "necessidade" é uma expressão de quatro cartas para a maioria das pessoas, porque para a maioria dos adultos isso expressa deficiência. O que você quer dizer com: “eu preciso?"


MJ: Acho que os adultos mascaram suas necessidades. Porque eles precisam de amor e têm seus companheiros na cama à noite. Mas condicionam-se a colocar barricadas e usam a psicologia, como: "Eu não preciso de você." Mas, na verdade estão fingindo, eles jogam. É tudo o que falamos antes. Eles colocaram todas essas barricadas mentais, fingindo não precisar. . . é uma guerra psicológica.


SB: Apreciamos a nossa independência. Mas as crianças não têm receio de agarrarem o vestido da mamãe e se agarrarem a ela, elas não têm medo de mostrar carência. Podemos aprender a carência das crianças? Você acha que as crianças ensinam os adultos a não ter receio de estar carente?


MJ: É claro que elas ensinam.


SB: Agora, o amor e o medo são opostos. A postura fundamental do amor é estender-se, para expor seu ponto fraco. Quando você abraça alguém, literalmente cria um espaço dentro de si mesmo para alguém existir. Você tornar-se vulnerável. Mas a postura fundamental do medo é o oposto. Deve puxar suas extremidades, para trazer seus braços e suas pernas para protegerem o seu tronco. Com amor você se expande, mas com medo você se contrai e volta a um estado embrionário.

Como você ensinará a Prince e a Paris a aceitação, quando também tem que ensiná-los a ser cautelosos?


MJ: Há um certo equilíbrio. Mas não quero ensiná-los a julgar as pessoas, "Oh, parece que ele vai me machucar." É difícil. Quero que eles sejam espertos. Acho que é minha tarefa julgar por eles. Minha tarefa.


SB: Uma das responsabilidades paternais para garantir que não prejudiquem seus filhos é protegê-los de modo que eles não tenham de se proteger. Você pode fazer isso por eles. Mas só por um tempo. Mais tarde, eles vão ter que aprender a protegerem-se. A maioria dos pais ensinaria a criança: "Se você vir este tipo de pessoa deverá ficar longe delas." Você decidiu deixá-los amar a todos e é seu trabalho de protegê-los.


MJ: Absolutamente. Acredito nisso.


SB: Essa é uma lição muito importante para todos os pais, Michael. Eu também não quero ensinar aos meus filhos o medo.


MJ: Isso é o que tem prejudicado muito as nossas crianças, colocando-as em uma situação onde começam a ficar críticas ou preconceituosas sobre a forma como se vestem ou têm seus cabelos, e isso não é genuíno. Os pais não deveriam fazer-lhes isso, deveriam deixá-las apenas verem o que acontece. . . . Quando as crianças surgem, tenho visto as mais difíceis, as pessoas mais duras humilharem seus guarda costas porque a luz entrou na sala.


SB: Então as crianças nos ensinam a aceitação, não só mentalmente, mas experimentalmente.


MJ: Absolutamente.


SB: Você se sente mais livre em volta das crianças? Por exemplo, você disse que sendo uma celebridade, não tem sua vida própria e as pessoas tiram fotos de você e você não pode andar na rua e tem que usar um disfarce. Sente-se mais livre em torno das crianças, mais natural, mais libertado?


MJ: Não somente sinto-me livre, mas sinto que estou em pé na frente de Deus. Sinto-me honrado, que sou um afortunado. Àquele que Deus o abençoou para estar em sua presença e que as outras pessoas não entendem, porque elas tratam-nas como se fossem descartáveis​​. Apenas chego à sala e há essa sensação de êxtase. Posso sentir isto, posso tocar nisso e isto evoca delas, porque isto é consciência, é o que é, a espiritualidade.


SB: É a cura para você?


MJ: Isso salvou a minha vida.


SB: Remove a dor quando você está na presença de crianças?


MJ: Salva a minha vida.


SB: Então, se Deus é luz, para usar a metáfora, enquanto que os adultos constroem essas barreiras que bloqueiam a luz e ficam sombrios, as crianças são translúcidas, sem barreiras conscientes entre elas e a luz. A luz de Deus brilha desobstruída através delas.


MJ: Elas são a luz. Eu dizia a Frank em outro dia, em minha opinião, Gavin representa a luz branca que vemos antes de morrermos, aquela esperança que chega. [Gavin foi o menino acometido de câncer que Michael recebeu, juntamente com sua família, em Neverland. Foi a criança que mais tarde se tornaria o acusador de Michael 2003. Michael foi absolvido de todas as acusações.] Não tenha medo, ele é como um anjo. Como não poderia ser doce e amável em sua alma? Há uma mensagem ali em algum lugar, as crianças têm isto.


SB: Mas você é capaz de ser você mesmo e, nesse sentido, você é mais livre sobre as crianças, como você disse, não se coloca todas essas barreiras.


MJ: Sinto mais liberdade quando estou com elas.


SB: Ok, outra coisa que aprendemos com as crianças é a transparência. Ao contrário dos adultos, as crianças são transparentes. Elas não são cautelosas sobre o que querem. É como se fossem feitas de vidro. Você pode ver através delas.


MJ: Posso ver diretamente através delas. Comunico-me com elas em silêncio. Olhando nos olhos, posso sentir exatamente o que dizem, logo que olham para mim, assim que o nosso contato visual é feito, porque a telepatia é realmente forte com as crianças, você pode sentir isso. São leitoras de berço. Elas podem ver quando você não está feliz. Elas leem expressões olhando em seus olhos. Não temos de dizer muito. Podemos fazer isso por meio da expressão. Mas elas estão em um lugar onde podem sentir emoções muito mais fortes do que os adultos. Muito telepática. Estão muito mais em sintonia com o universo inteiro.


SB: Se você vê o mundo através dos olhos de uma criança, o que diria que parece?


MJ: É um presente embrulhado. É mágico. É maravilha. Isto é maravilhoso e você fica curioso sobre tudo. É fantástico. É magnífico. É inspirador.


SB: Quando você vê esse mundo embrulhado para presente, você vê algumas das feiuras do mundo? Vê coisas que o magoam também? Você vê que muitas pessoas são más. Como você lida com isso?


MJ: Não entendo isso. Não compreendo isso.


SB: E você acha que, enquanto não compreender isso, isso significa que você não tem que modificar-se para adaptar-se a isto? Não é como dizer a si mesmo: "Tenho que ficar na defensiva." Ou melhor, você apenas diz para si mesmo: "Apenas não compreendo... Isso não deve ser." Para você isso ainda é um mistério, e se é um mistério, se isto permanece irracional, então isso não pode invadir a sua própria personalidade. Isso não pode penetrar em sua psique. Isso não pode afetá-lo.


MJ: Sim.


SB: Então, se você encontra alguém que seja mau, como você reage quando olha  através dos olhos de uma criança?


MJ: Dói. Quando eu era pequeno, Bill Cosby costumava me ver no corredor dos estúdios da NBC e dizia [com a voz alta e endurecida]: "Ei, o que vocês crianças estão fazendo aqui? Tirem essas crianças daqui."

Todos ficavam rindo, mas eu pensava que era sério e ficava morrendo de medo e chorava. Fiquei durante anos, na verdade, sem gostar dele. Lembro-me que estive em um clube e houve este homem que disse: "Ei, rapaz! O que você está fazendo aqui?" E ele continuaria até que eu chorasse. Eu não entendia, e isso me faria tanto medo de adultos e pessoas de estatura grande. Ficava intimidado por eles por causa disso. Eles não percebem a dor que estão causando quando tratam as pessoas assim. Isso não é engraçado.

É por isso, que quando vejo crianças sou exatamente o oposto. Sou muito, muito gentil, sensível com elas. Não quero cometer nenhum desses erros, de forma alguma. Meu pai costumava fazer isso às crianças. Ele não faz mais, mas lembro-me quando eu era pequeno [levantava a voz agressivamente]. . . "Qual é o seu nome? Onde você mora?" e elas falavam [voz embargada], "Eu moro na rua de baixo." Eu pensava: "Por que ele gosta de fazê-las chorar? Tenho certeza que isto é muito assustador." Nunca esqueci aquela sensação, nunca.


SB: Mas quando você testemunha isso, sua reação é: "Eu não compreendo isso. Por que você está fazendo isso?"


MJ: Por que está fazendo isso? Por que quer machucar alguém assim? Posso dizer quando uma criança está com medo, você pode ver isso em seus olhos e ouvir isso em sua voz. Você faria algo assim?


SB: Espero que não. O que faz você ouvi-las quando até mesmo seus próprios pais não as ouvem?


MJ: Posso sentir as crianças, posso senti-las. Se estão sofrendo, de qualquer forma quero estar lá por elas, onde quer que haja dor.


SB: Você guarda muito disso para si mesmo. Você tem, assim, uma expressão impassível. Quando saímos para jantar, ou quando você vem à nossa casa, as pessoas olham para você e pensam: "O que será que Michael está pensando?" Você guarda tudo isso lá dentro.


MJ: Sim. Mas, não, eu sinto isto. Sinto demais isto. Posso sentir a dor das pessoas.


SB: Você já ficou envergonhado por alguma coisa? As crianças, naturalmente, se sentem envergonhadas.


MJ: Sim, acho que não se deve envergonhar as crianças [provocando-as] a menos que elas possam rir também. Lembro-me de ter sido constrangido tão gravemente. Meu pai fez o pior disso comigo. Ele me batia tão forte quanto podia e, em seguida, empurrava-me para fora na frente dos meus fãs, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Uma coisa é dar disciplina, mas sem envergonhar você.


Tradução: Maíra Vida




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