Capítulo III - Disco BAD Parte I

Capítulo III - Disco Bad  Parte I 

DISCO BAD 


“Nós trabalhamos em Bad por muito tempo. Anos. No fim, valeu a pena, porque nós ficamos satisfeitos com o que nós tínhamos realizado, mas foi difícil também… Você pode sempre dizer, ‘Ah, esqueça Thriller’, mas ninguém nunca irá.”


MICHAEL JACKSON, MOONWALK, 1998


LANÇADO: 31 de agosto de 1987

PRODUTOR:Michael Jackson e Quincy Jones

NOTÁVEIS CONSTRIBUIÇÕES:


Bruce Swedien (engenheiro de gravação), Matt Forger (engenheiro técnico), John Barnes (Ritmo, Sintetizador, arranjo de bateria, Christopher Currel (Synclavier/ sintetizador/ teclado), Larry Williams (programação de sintetizador/sax), Greg Phillinganes (sintetizador/arranjo), Stieve Wonder (vocais), Siedah Garret (vocais/compositora), Glen Ballard (compositor), O Coral Andraé Crouch (vocais), Steve Stevens (guitarra)


SINGLES: “I Just Can’t Stop Loving You”, “Bad”, “The Way You Make Me Feel”, Man In The Mirror”, “Dirty Diana”, “Another Part Of Me”, SmoothCriminal”, “Leave Me Alone”, “Liberian Girl”


ESTIMATIVA DE CÓPIAS VENDIDAS: 35 milhões


A reação inicial a Bad foi previsível.


Nada poderia alcançar o fenômeno Thriller. No início do meio dos anos oitenta, Michael Jackson alcançou o auge do sucesso como um artista de gravação e entertainer, alcançando toda a honra, recordes e prêmios imagináveis. Em 1987, ele já estava sendo rotulado de“Wacko Jacko”, enquanto as pessoas especulavam selvagemente sobre a mudança da cor da pele dele, cirurgia plástica, câmera hiperbárica e os ossos do Homem Elefante. Esta mudança na percepção pública teve um enorme impacto na forma como Bad foi recebido. Muitos críticos e consumidores, simplesmente, não puderam separar a música da nova imagem e das histórias sensacionalistas.


Apesar das controvérsias, porém, Bad tornou-se um hit massivo mundialmente, produzindo um recorde de cinco hits número1 .Enquanto ele não podia alcançar o exagerado número de vendas de Thriller, ele vendeu mais que trinta milhões de cópias (dois terços das quais foram fora dos Estados Unidos), fazendo dele um dos álbuns mais vendidos dos anos oitenta.


Similarmente a o clássico Purple Rain de Prince, 1984– para o qual Bad pode ser visto como uma resposta parcial –, Bad é um álbum fantástico, tematicamente eclético, uma odisseia sonoramente inovadora. As músicas funcionam como cápsulas de sonho cinematográficas, levando os ouvintes de uma urbana estação de metrô (“Bad”) a uma corrida de carro (“Speed Demon”),de uma floresta da África (“Liberian Girl”)à cena do homicídio de uma jovem garota (“Smooth Criminal”).


A forma de linguagem livre de Jackson nos mantêm conscientes de que nós estamos na época de várias realidades,” observa Davitt Sigerson, da Rolling Stone, “o filme, o sonho que ele inspira; o mundo despertando que ele ilumina”. Sonoramente, Bad expande nas músicas de Thriller, usando “uma combinação de sons de bateria digital, o espesso teclado, linhas de baixo e outros elementos de percussão que pulsa como batimentos cardíacos e pancadas com punhos”.


Como último álbum de Jackson produzido com Quincy Jones, Bad contém uma das mais duradouras obras artísticas dele. Ele não foi um colosso comercial como Thriller (como nenhum álbum de nenhum artista tem sido), mas criativamente, ela era uma saudável sequência.


Quando Michael Jackson estava preparando para lançar Bad, em 1987, a era Reagan estava chegando ao fim. Enquanto o presidente poderia sair com uma marca de mais de sessenta por cento de aprovação, o legado dele era híbrido: conservadores viam-no como um líder forte, carismático, que reanimou o orgulho e o poder da América, revigorou a economia, e acabou com a Guerra Fria. Outros sentiam que ele era um intelectualmente desafiado, preenchido por corporações, que supervisionou déficits inflacionados, regressão social e uma crescente fenda entre rico e pobre.


Afora qualquer perspectiva, Reagan foi uma presença cultural poderosa, cuja fala macia, imagem de caw-boy e aura de avô, que lembrava as pessoas de uma imaginada “era de ouro” na América. A famosa campanha dele “Manhã na América” falou à nostalgia das pessoas pela a pré-estabilidade e simplicidade de 1960.


Se Ronald Reagan representava o conservador desejo da América no passado, outro grande ícone da década, Michael Jackson, porém, representava algo bem diferente. Na verdade, quando os dois se encontraram, em 1984, o contraste não poderia ter sido mais evidente. Reagan era velho e branco; Jackson era jovem e negro; Reagan era impassível e masculino, Jackson era elegante e feminino; Reagan vestia um escuro terno corporativo, Jackson vestia uma brilhante jaqueta azul sargento Pepper, de estilo militar, com uma guarnição dourada, lantejouladas meias, óculos escuros de aviador e uma luva de lantejoulas. “Houve alguma vez um encontro mais surreal de opostos” preguntou o crítico cultural Paul Lester,“que aquele entre o pop star mais excêntrico do mundo e o… ex-ator Presidente?”.


Jackson, flanqueado por Ronald Reagan e Nancy Reagan, visita a casa Branca, em 1984. Ele recebeu um prêmio pela participação dele na campanha contra dirigir embriagado.


Isso foi em 1984. Em 1987, Jackson tinha assumido uma personalidade mais excêntrica, contra cultural. A capa do álbum, o título do seguimento para Thriller, era tanto visualmente, quanto retoricamente, posicionado contra a expectativa dominante. Isso foi uma decisão calculada da parte de Jackson para evitar que fosse percebido como “seguro” e familiar.


A transformação, no entanto, não foi sem uma repercussão. Talvez o mais controverso fosse a aparência dele, a qual, crescentemente, desafiava toda categorização fácil, levantando questões desconfortáveis sobre raça, gênero, sexualidade e idade. Mais que David Bowie ou Prince, Jackson tornou-se o mais famoso símbolo da androgenia. Isso o tornou crescentemente impossível de definir – ou afirmar –por qualquer grupo. A maquiagem dele e couro preto, fivelas e botas, combinavam com a estética subcultural doglamour punk. Para os críticos, porém, isso era um talhe desconfortável para alguém popular como Jackson. Por razões similares, ele não era abertamente abraçado pelo hip-hop (embora ele viesse a ser, mais tarde). Jackson simplesmente via a nova imagem dele como um tipo de performance. O mundo era o palco dele e ele estava pronto para experimentar um novo personagem. O look punk, a dança com membros de gangue, a subversão de linguagem (“bad” se tornou bom, corajoso e valentão) todas enviaram sinais declarativos. Isso o tronou mais polarizado que em Thriller, mas isso era a intenção dele. A identidade envolvente dele, então, representava a completa oposição da dualística de Reagan, e/ou da visão mundial. Michael Jackson representava todas as complexidades e ambiguidades da nova América (e mundo).




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