Capítulo III - Disco BAD Parte II

 Man In The Music: Capítulo III - Disco BAD - ( Parte II )

Disco BAD


Ele queria que Bad fosse mais ousado e mais resistente que Thriller


Madona, igualmente, levou o pop para outro território, criando uma imagem acessível, mas provocativa, que empurrou os limites da acessibilidade. Dos históricos álbuns dela, Like a Virgin (1984) e Tru Blue (1986) vieram clássicos controversos como “Material Girl” e “Papa Don’t Preach”, que ajudaram a torná-la, ao lado de Jackson, a definição de íconepopda década. Como Prince, a sexualidade dela era agressiva e, muitas vezes, rude, criando uma nervosa marca de pop que ameaçou fazer Michael Jackson parecer domesticado em comparação.


Jackson estava bem consciente dessas tendências musicais e respondeu de acordo. Ele queria que Bad fosse mais resistente e desafiador que Thriller. Em 1960, Quincy Jones arranjou um encontro com Run DMC. Naquela época, o impertinente, agressivo trio de hip-hop estava no topo da popularidade dele e ainda tinha grande credibilidade nas ruas. “Nós somos o Michael Jackson de agora”, gabou-se Darryl McDaniels para a Rolling Stones, em 1986. “Prince era isso quando Purple Rainsaiu. Mas nós somos o que está acontecendo agora. Nós somos a música. Nós somos o que é quente.”


Antes de encontrar Jackson, em pessoa, o grupo do Queens estava cético sobre trabalhar com o pop star. Eles sentiam que ele era muito separado do mundo real, até mesmo para compreender o que acontecia nas ruas. Depois de encontrar e discutir uma demo chamada “Crack Kills”, porém, a preocupação (ou postura) do Run DMC desapareceu. “Ele é o melhor homem do mundo”, Rev Run despejou, “Ele é um ser humano incrível. Nós comemos alimento espiritual no estúdio de Michael na noite passada e era como se ele estivesse em contato com Deus. Ele é tão calmo, tão contente e eu irei para o estúdio fazer uma gravação com ele. Isso será uma música anti-crack.


O cara que fez Mean Street e Taxi Driver [o diretor Martin Scorsese] fará o vídeo. A coisa toda é simplesmente incrível. Michael continuou perguntando a mim sobre rap. Eu perguntava a ele sobre venda de álbuns. E quando o frango frito chegou, eu soube que ele estava legal.”


Infelizmente, a colaboração entre os Reis do Hip-Hope o Rei do Pop nunca foi lançada para o álbum, embora haja demos existentes. Alguns alegam que houve uma desavença, embora publicamente o Run DMC tenha mantido o respeito e admiração por Jackson, desde o encontro deles. Quincy Jones tem afirmado que Jackson não foi vendido em hip-hopcomo uma legítima força na música naquele tempo, sentindo que isso poderia ser apenas outra mania. Outros, incluindo Jackson, no entanto, têm dito que ele estava, verdadeiramente, muito interessado em rap, mas sentia que isso precisava de uma injeção de melodia (o que, incidentalmente, logo aconteceria nos anos noventa). Portanto, Jackson gostou do conceito de “Crack”, mas não sentiu que ela era muito certa para o álbum. (Jackson, eventualmente, sampleou Run DMC na introdução de “2Bad”, em History.)


Jackson também estendeu um convite ao rival Prince (via Quincy Jones), para aparecer em um dueto para a faixa título. Para os, indiscutivelmente, dois maiores artistas da década – que tinham muito em comum, mas também eram ferozes competidores – performar juntos no auge do poder deles teria sido algo para contemplar. “Como Michael planejou isso”, escreveu o biografo J. Randy Taraborrelli, “ele e Prince enquadrariam um ao outro (no vídeo), revezando-se cantando e dançando, a fim de determinar, de uma vez por todas, quem era ‘bad’”.


Michael Jackson e Prince têm seguido a carreira um do outro desde o início dos anos oitenta e, relutantemente, admiravam o trabalho um do outro, embora ambos sentissem que eles eram artisticamente superiores. “Isso era um estranho ápice”, lembrou o jornalista Quincy Trouxe sobre um dos encontros entre os artistas. “Eles eram tão competitivos um com o outro que nem daria qualquer coisa. Eles meio que sentaram lá, observando um ao outro, mas falando muito pouco. Isso era um impasse fascinante entre os dois caras muito poderosos.”


Por fim, Prince decidiu recusar o projeto, sentindo que isso estava preparado para Jackson parecer melhor. “Eu estive lá para dois encontros entre Prince e Michael”, recorda o engenheiro de gravação de longa data de Jackson, Bruce Swedien. “Pessoalmente, eu pensei que, de encontrar com Michael, Quincy e John Branca, Prince percebeu que ele não podia vencer aquele dueto/duelo com MJ, artisticamente ou de outra maneira… e se retirou.”


“Bad”, é claro, ainda acabou se tornando um hit number one (o que Prince previu que seria o caso), embora também tenha gerado um monte de críticas. Muitos sentiam que a nova imagem de valentão de Jackson era muito artificial.


Enquanto Prince e Madona podiam se sair muito bem sendo “bad”, Jackson ainda lutava para superar a personalidade, alternadamente, “inocente” e “excêntrica”. Como Jay Cocks escreveu para o Times, em 1984: “Muitos observadores descobriram na ascendência de Michael Jackson a definitiva personificação do andrógeno rock star. O alto tenor dele o fazia soar como o líder em algum coro funk de crianças, mesmo com o dinamismo sexual irradiando do arco do corpo dançante dele, desafiando normas governamentais para fusão nuclear. A estrutura flexível dele, os olhos penetrantes, cílios longos, poderiam ser ameaçadores, se Jackson desse, ainda que por um segundo, a impressão de que ele era alcançável. Porém, o senso que o público tinha da sensualidade dele tornou-se muito deliberadamente confusa com a imagem de espelho da vida dele: o bom menino, a religiosa Testemunha de Jeová, o vegetariano determinado, o convicto não adepto ao fumo, bebidas fortes, drogas de qualquer tipo, a inocência impossivelmente isolada.


Inegavelmente sexy. Absolutamente seguro. Erotismo à distância.”


Alguns argumentam que essa “segurança” resultou de uma vida de isolamento e privilégio, que tornou impossível para ele entender os assuntos do mundo real. O que ele sabia sobre drogas, pobreza ou violência de gangues?(Interessantemente, todo esse dilema foi mostrado no curta-metragem “Bad”, dirigido por Martin Scorcese.) Enquanto seja verdade que Jackson não tinha vivido nas “ruas”, desde que ele era um menino, em Gary – e, portanto, não podia, convincentemente, transmitir essa realidade do jeito que um grupo dehip-hop como o Run DMC poderia – ele tinha as próprias experiências dele de onde extrair. Ele tinha experimentado isolamento, abuso, exploração, traição, solidão, medo, discriminação, coisificação e uma tropa de outros desafios. Ele também tendia a internalizar profundamente o sofrimento e a injustiça experimentados por outros. Muitas dessas experiências e emoções vieram à tona no trabalho dele, embora de forma sutil e metafórica. Com Bad elas podiam ser misturadas com uma fantasia eclética, nervosa, que fornecia tanto uma saída quanto uma janela para o mundo único dele.


Antes de o trabalho em Bad começar, seriamente, porém, Jackson tomou parte em um projeto que, por toda a acusação do isolamento e fantasia dele, era decididamente voltado para o exterior.






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