Livro Man In The Music: Introdução III :”Um Mundo de Imaginação”
UM MUNDO DE IMAGINAÇÃO
Durante a vida dele, Jackson sempre teve o dedo dele no pulso da indústria da música. Como um fã, e como um artista, procurando por novos sons e ideias. Ele era fascinado tanto pela “mística” quanto pela artística dos dois maiores fenômenos pop antes dele: Elvis Presley e os Beatles (não foi coincidência que ele ter casado com a filha do primeiro e comprado o catálogo do segundo). Quando ele pensava no próprio legado artístico e cultural, Presley e os Beatles permaneciam no fundo da mente dele. O interesse musical dele, contudo, também incluía influências menos óbvias, tais como Led Zepelin, Yes, Grace Jones e Radiohead. “Eu tive todo tipo de fitas, e algumas que as pessoas, provavelmente, nunca pensariam que eram minhas”, ele disse uma vez. Esse vasto reservatório de conhecimento musical apareceu através da música dele. Para “Wanna Be Startin’ Something”, ele incluiu um grito africano inspirado pelo saxofonista de Camarões, Manu Dibango, o “Soul Makossa”; em “Little Susie”, ele usou uma seção da obra de coral do compositor francês Maurice Duruflès, Requiem Op. 9; em “2Bad” ele apresentou samples dos pioneiros de hip-hop, Rum-D.M.C. Como Greg Tate observou, Jackson estava disposto a pegar “todos que, ele pensava, fariam a expressão dele próprio mais visceral, moderna e excitante.”
Uma das coisas que fez Jackson único como um artista, porém, é que muitas das influências eram nada além de modernas e contemporâneas. Quando perguntado qual foi a maior inspiração dele para Thriller, ele não responde Prince ou The Police; ele dizia que foi o compositor russo do século dezenove, Tchaikovsky. “Se você pega um álbum como Nutcracker Suite”, ele explicou, “todas as músicas são excelentes, todas elas. Portanto eu dizia a mim mesmo: ‘ Por que não pode haver um álbum pop (assim?)’” Isso não era apenas uma visão da consistente qualidade que música clássica inspira. Desde a juventude dele, Jackson tem escutado compositores como Tchaikovsky, Debussy, Prokofiev, Beethoven, Bernstein e Copland. Jackson era, particularmente, atraído por peças Românticas e Impressionistas, que continham melodias fortes e vívidas, cores emocionais. Para Jackson, música era sempre muito visual; ele era atraído, portanto, para peças as quais eram ligadas, ou evocavam, algum tipo de presença visual, como o Arabesque Nº 1, de Debussy, ou Peter and the Wolf, de Prokofiev. Influências clássicas permanecem na obra de Jackson, às vezes, até literalmente, como prelúdios ligados à própria composição dele.
Jackson era, também, um devotado fã de musicais, incluindo The Sound of Music, Singin’ in the Rain, My Fair Lady e West Side Story e incorporou o estilo deles tanto nos vídeos, quanto nos álbuns dele. Essa é uma influência que, algumas vezes, o colocou em desacordo com tradicionais críticos de rock, que sentiam que ele era muito “teatral”. Mas Jackson nunca desviou do amor dele por show de música. Ele era também obcecado por filmes: todos os velhos filmes da MGM, tudo da Disney, Spielberg, Lucas, Hitchcock e Francis Ford Copola. Ele assistiria a filmes como E.T, The Elephant Man e To Kill a Mockingbird, repetidamente, e choraria todas as vezes. “Em filmes, você vive momentos”, ele explicou. “Você tem a audiência por duas horas. Você tem o cérebro deles, a mente deles, você pode levá-los a qualquer lugar que você queira levá-los. Você sabe, e essa ideia é fascinante para mim, que você possa ter o poder de mover as pessoas, de mudar a vida delas.”
O intenso amor de Jackson pela tela de prata geraria muitas paixões. Ele era fascinado por todas as coisas de Shirley Temple e Elizabeth Taylor (os boatos sobre “altares” para ambas era verdade). Ele ostentava uma coleção de desenhos animados maior que Paul McCarteney. Ele poderia assistir aos Três Patetas por horas sem fim. Ele, famosamente, alegava que ele “era Peter Pan”, tão grande era a afinidade pelo icônico herói de J.M. Barrie. Jackson estudava o trabalho de todos os principais dançarinos do século, incluído Fred Astaire, Gene Kelly, Bob Fosse, Martha Graham, Alvin Ailey e Jeffrey Daniel (todos os quais igualmente o admiravam). A mais profunda afinidade dele, porém, poderia ter sido com a lenda do cinema, Charlie Chaplin, uma figura paradoxalmente similar, que foi criado na pobreza e se tornou o maior entertainer da época dele. Alguém pode descobrir os movimentos de Chaplin, estilização e combinação de exuberância e emoção através do trabalho de Jackson.
Não apenas ele observou e escutou a essas pessoas, ele leu sobre elas. Jackson era um leitor voraz. Desde a infância dele até os anos finais, ele visitaria livrarias e viria para casa com pilhas de livros. A biblioteca pessoal dele continha mais de 20 mil títulos, incluindo biografias, poesia, filosofia, psicologia e história. Jackson lia sobre a escravidão afro-americana e o movimento dos direito civis, sobre Edson e Galileo, sobre religião e espiritualidade. Ele lia novelas de J.M. Barrie e Charles Dickens. Ele lia Blake, Emerson e Wordsworth. Ele, famosamente, forçava a equipe dele a ler a biografia de P.T. Barnum e, frequentemente, citava passagens das biografias de Michaelangelo e Albert Einstein.
Quando Jackson fazia um álbum ou dançava ou criava vídeos musicais, ele estava puxando de um imenso depósito mental. Isso era um diverso e vibrante mundo de imaginação, que, para Jackson, era apenas tão real quanto à vida dele, senão, ainda mais.
Em uma parte não pequena, por causa dessa influência elétrica, o trabalho do próprio Jackson foi caracterizado pela fusão: de diferentes eras, diferentes estilos, diferentes mídias e diferentes gêneros. Em razão disso, avaliar o trabalho dele é mais que desafiante, pois eles nunca isolaram expressões. Em Black or White, por exemplo, há elementos de rock clássico, R&B, rap e pop. Mas é também um curta-metragem que se desenha a partir de fontes tão díspares quanto a Cantando na Chuva, de Stanley Donen e Geny Kelly; e a Do The Right Thing, de Spike Lee. Além disso, é uma rotina de dança que aproxima inúmeros estilos, de sapateado a hip hop e dança moderna. Para cada peça, há “um longo primeiro plano” que faz o trabalho dele parecer simultaneamente familiar (porque é historicamente informado) e novo (porque é uma fusão de formas muito únicas e criativas).
Quando se avalia a música de Jackson, é particularmente importante levar em conta a representação visual dela. Mais que qualquer outro artista antes dele, nós “vemos” as músicas de Michael Jackson, através das interpretações dele e vídeos. É quase impossível escutar faixas como “Thriller”, “Bad”, “Smooth Criminal” e “Black or White” sem visualizar os figurinos de Jackson, coreografia e narrativas cinematográficas. Alguns puristas da música, tanto dos anos 80 quanto de hoje, têm lamentado essa tendência de fusão de meios, sentindo que isso polui a integridade da música. Antes de Jackson, é claro, muitos outros artistas, incluindo Elvis Presley e Beatles, apresentaram as músicas deles visualmente em filmes e na televisão. Durante a maior parte dos anos 70, porém, a forma artística conhecida com “music-video” foi, essencialmente, uma ignorada ferramenta de promoção, realizando produções pobres, pequenos orçamento e narrativas ruins.
Em 1983, contudo, Jackson reinventou completamente as possibilidades. Billie Jean e Beat It iniciaram a transformação, substituindo montagens promocionais baratas por produções elaboradas, completamente concebidas, que continham narrativas fortes, visual e efeitos espetaculares e, é claro, a característica coreografia e movimentos de dança de Jackson. Depois veio o inovador vídeo de quatorze minutos de “Thriller”, o qual custou mais de meio milhão de dólares para ser feito e se tornou o vídeo caseiro em VHS mais vendido de todos os tempos. Thriller é, agora, quase universalmente considerado o vídeo musical mais influente da história.
Tal inovação nos meios continuaria por toda a carreira de Jackson, fazendo dele a definição de artista visual da geração MTV. Desde a pioneira atração 4-D, Capitain EO, ao espetáculo gótico de quarenta minutos, Ghosts, Jackson esteve sempre à frente, expandindo as possibilidades dos meios, enquanto inflamava a imaginação dos espectadores. Na verdade, em retrospecto, como o crítico cultural Hampton Stevens notou, “A tradicional sabedoria convencional, repetida tantas vezes, de que os vídeos de Jackson fizeram a MTV e, daí, ‘mudaram a indústria da música’ é apenas metade da verdade. É mais como se a indústria da música tivesse inflado para abranger o talento de Jackson e se encolhido, de novo, sem ele. Os vídeos não importavam antes de Michael e eles deixaram de importar quase no momento cultural preciso em que ele parou de produzir grande obra.”

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