Introdução IV - Cantando além da linguagem

 Man In The Music: Introdução IV “Cantando Além da Linguagem”


CANTANDO ALÉM DA LINGUAGEM

Embora este livro reconheça as contribuições da dança e dos filmes de Jackson, porém, ele enfatiza o trabalho dele como cantor e compositor. Talvez, em parte, porque as habilidades de Jackson nessas outras áreas, as habilidades notáveis dele como vocalista e compositor são, muitas vezes, esquecidas. Há, sem dúvidas, uma variedade de razões para essa negligência, uma delas é que a avaliação do trabalho de Jackson é muito diferente da de um cantor tradicional, como Bruce Sprinsteen e Bob Dylan.


Com Dylan, as melodias estão quase sempre na frente e centradas em avaliações críticas; no entanto, para Jackson, elas podem ser, muitas vezes, auxiliares ou, pelo menos, uma das tantas mídias a considerar. Na verdade, mesmo nas vocalizações dele, parte do distinto estilo de Jackson é a habilidade dele de transmitir emoção sem o uso da linguagem: há as características engasgadas, suspiros, grunhidos, gritos, choros e exclamações, ele, também, frequentemente, fala de forma tão rápida, torce e contorce a palavra, até que fique praticamente indecifrável. A ideia é fazer a audiência “sentir” a música com impressão dos sentidos, em vez de focar inteiramente nas palavras. Tal “impressão”, é claro, pode ser mais difícil de analisar.


O método mais instintivo de Jackson foi algo que ele aprendeu assistindo os maiorais dofunk, soul e rythm and blues. Mas ele desenvolveu um estilo que era inegavelmente dele próprio. Era uma voz que, brilhantemente, evocaria emoções extremas, injetando as letras mais comuns com profundidade e emoção. “(Michael)”, observou Quincy Jones, “tem algumas das mesmas qualidades dos grandes cantores de jazz, com os quais eu trabalhei: Ella, Sinatra, Sassy, Aretha, Ray Charles, Dinah.


Cada um deles tem esta pureza, esta canção fortemente marcada e que abre a ferida, que os empurram para a grandeza. Cantam esmagando a dor deles, curando as mágoas deles, e dissolvendo os problemas deles. Música é a libertação deles da prisão emocional”.


De um ponto de vista técnico, o amplo alcance de Jackson permitiu que ele se movesse de forma fluída por, aproximadamente, quatro oitavas (isso foi algo em que ele trabalhou muito duramente para alcançar, quando adulto, embora ele raramente empurrasse o alcance dele para além dos limites). Um tenor natural, o canto dele no tom mais agudo era suave e sublime, mas ele também podia ser efetivo nas notas mais baixas, ocasionalmente, até caindo para um barítono. Todos que trabalharam com ele comentam sobre a afinação perfeita dele. O treinador de voz de longa data dele, Seth Riggs, maravilhou-se tanto com as habilidades quanto com a dedicação dele. Jackson, afinal de contas, era uma dos mais talentosos cantores infantis de todos os tempos. As pessoas, muitas vezes, pensam que foi fácil a transição dele para um cantor adulto, mas foi preciso uma enorme quantidade de trabalho e desenvolvimento. Ele teve que encontrar novas formas de abordar os sons e novas formas de empregar o conjunto de habilidades dele.


O que Jackson pode ter perdido em elasticidade juvenil, ele fabricou em criatividade e versatilidade. Atráves de Off The Wall, apenas, pode-se viajar do êxtase falseteado de “Don’t Stop Till You Get Enough”, ao calor sutil de “Rock With You”, à original percussão de “Workin’ Day And Night”, à improvisação de jazz de “I Can’t Help It”, ao vulnerável sussurro de “She’s Out of My Life”.


Em álbuns subsequentes, ele disparou sobre majestosos hinos ao lado de coros gospel, emitiu corajosos scratch vocais em “Dirty Diana” e “Give Into To Me” e implementou rapsfalados e beatboxing em muitas das faixas ritmo. “Jackson era um dançarino no coração”, escreveu o critico musical Neil McCormick, “e as proezas vocais dele expressavam-se alegremente dentro e em volta do ritmo.


Ele gostava de fazer várias faixas com a propria voz, de modo que ele desfiava a própria voz, perguntando e respondendo a si mesmo. Eu, muitas vezes, pensei que esta era uma daquelas vozes que se destacaria em qualquer contexto, o que você não pode dizer de muitos cantores pop, atingindo um espaço que está, emocionalmente, direto no fundo, mas é quase mais que humano, transcendendo todas as divisões, da mesma forma que, às vezes, um supercantor mundial pode, além da linguagem, em música pura”. Isso, na verdade, foi o que ele objetivou alcançar com o canto dele. Escute ao choro sem palavras de Jackson em “Earth Song” ou nos *scatting dele na inacabada “In The Back”. Palavras não são necessárias, a emoção profunda é demonstrada perfeitamente na apresentação dele. A voz dele é música.


Jackson usava a musicalidade intuitiva dele como compositor também. Embora ele não lesse música ou tocasse perfeitamente instrumentos, ele podia, vocalmente, transmitir o arranjo, o ritmo, o tempo e a melodia da faixa, incluindo quase todos os instrumentos. “Ele começava com o som e com a música completa”, explica o produtor Bill Bottrell. “Normalmente ele não começava com as letras, mas ele escutava todo o arranjo da música na cabeça dele... Ele cantarola coisas. Ele pode demonstrar os sons com a voz dele como ninguém. Não apenas cantando as letras das músicas, mas ele podia demonstrar um sentimento em uma parte de bateria ou em uma parte de sintetizador. Ele era realmente bom em transmitir essas coisas.” Muitas vezes, Jackson vocalizaria uma nova música, em uma gravação em fita, até que ele pudesse chegar em estúdio; outras vezes, ele ligaria para um músico ou produtor e ditaria para ele ou ela, diretamente. “Uma manhã (Michael) veio com uma nova música que ele tinha escrito durante a noite”, recorda o engenheiro assistente Rob Hoffman. “Nós chamamos um guitarrista e Michael cantou todas as notas de todos os acordes para ele. ‘Aqui está o primeiro acorde, primeira nota, segunda nota, terceira nota. Aqui está o segundo acorde, primeira nota, segunda nota, terceira nota’, etc. Nós, então, o testemunhamos dando as mais sinceras e profundas performances vocais, ao vivo, na sala de controle no SM57. Ele cantaria para nós todo o arranjo das cordas, todas as partes. Steve Porcaro, uma vez, me disse que ele testemunhou (Jackson) fazendo assim com uma seção de cordas na sala. Tinha tudo na cabeça dele, harmonia e tudo. Não apenas oito pequenos versos de repetições de ideias. Ele, na verdade, cantaria o arranjo inteiro em uma gravação microcassete completa, com todas as paradas e retomadas.”


Uma vez que Jackson tinha a fundação da música, ele começaria a pincelá-la, camada por camada, um processo que poderia, às vezes, levar poucas semanas e, às vezes, levar anos. “Música é tapeçaria”, ele explicou. “São camadas diferentes, tecendo dentro e fora e se você olhar para as camadas, entende melhor.” Ele gostava de dar tempo para que a música se revelasse. Se não estava toda lá, ele mudaria para outra coisa e voltava àquela música depois. Aqueles que trabalharam com ele falam da paciência dele, do foco e genuíno comprometimento com a profissão dele. “Ele era um profissional consumado”, lembra-se o diretor técnico Brad Sundberg. “Se os vocais dele estavam agendados para um pessimista meio-dia, ele estaria lá às 10 horas, com o treinador de voz dele, Seth (Riggs), cantando escalas. Sim, escalas. Eu configuraria o microfone, checaria o equipamento, faria café, e tudo enquanto ele cantaria escalas por duas horas.”


No estúdio, Jackson tinha todas as preferências específicas. Antes de cantar, ele sempre iria pedir uma bebida escaldantemente quente com pastilhas para tosse, para relaxar as cordas vocais dele. Ele gostava da música bem alta e os colaboradores dele, muitas vezes, tinham que usar protetores auriculares ou deixar a sala. Ele, normalmente, cantava com as luzes apagadas, pois a escuridão permitia que ele se imergisse totalmente na música sem sentir-se constrangido.


Enquanto ele cantava, também dançava, tamborilava e estalava os dedos. Se ele ainda não tinha a letra escrita, ele iria, simplesmente, cantarolar quaisquer palavras pela música ou comporia as palavras à medida que avançava. Entre sessões, ele gostava de rabiscar em pedaços dispersos de papel ou brincar com animais que ele trazia, incluindo o chipanzé dele, Bubbles e a jiboia, Muscles (que gostava do calor do painel de controle). Apesar dos caprichos dele, é praticamente impossível encontrar alguém com quem Jackson trabalhou que não tenha ido embora com um profundo nível de respeito e admiração. 


Mesmo quando a vida pessoal dele estava em desordem, os colegas criativos dele testemunharam um indivíduo muito diferente do homem retratado nos tabloides. De produtores a engenheiros assistentes e músicos parceiros, eles o descrevem com possuindo certa “aura”, mas sendo honesto, humilde e gentil. Eles descrevem o senso de humor dele e a gargalhada “estrondosa”; eles descrevem a curiosidade dele; eles descrevem a paixão e o excitamento dele por cada novo projeto. “Todas as músicas de Michael foram realizadas com um senso de alegria que eu nunca tinha experimentado com outros artistas”, recorda o longínquo engenheiro de gravação, Bruce Swedien. “Não apenas piada e gargalhadas e coisas assim, eu quero dizer verdadeira alegria musical... A paixão dele pelo que estávamos fazendo era infinita.”


Jackson goza um iluminado momento no palco. Os colaboradores dele o descrevem como tendo um maravilhoso senso de humor. O produtor Bill Bottrell, que trabalhou de perto com Jackson durante as sessões de Bad e Dangerous, elogia-o por desafiá-lo e pressioná-lo como um artista parceiro. “(Ele) começava me pedindo para assumir mais responsabilidade, tocar mais música, escrever música, tocar mais instrumentos... Ele mudou minha vida. E essa sensação nunca terminou.” Bottrell, e outros, não apenas falam sobre ser tratados como iguais, mas também sobre a sincera apreciação de Jackson pelo talento e pela contribuição deles. 


O compositor/músico Brad Buxer, que trabalhou intimamente com Jackson por vinte e cinco anos, recorda a emoção de apenas encontrar o acorde ou a batida certa. “Quando você fazia algo que (Michael) gostava”, Buxer diz, “ele diria: ‘É isso. Isso é perfeito. Grava isso no cimento. ’ Nós chamávamos uma versão que era especial de ‘versão bíblica’. Nós trabalhávamos em milhares de versões, mas nós colocávamos ‘Bíblico’ na melhor... Era apenas um momento extremamente prazeroso, divertido, por causa da liberdade musical. Você sabia no fim do dia que você tinha alguma coisa... Isso nunca ficou velho, nunca ficou antigo”.


Fazer música, para Jackson, raramente, era um ato isolado. A ideia poderia vir em um momento de solidão, mas era realizada de forma muito parecida como um diretor realiza um filme: através de uma dinâmica e descentralizada interação de criatividade. Jackson adorava reunir talentos e ser parte em um time criativo. Uma vez que ele encontrava as pessoas certas, desde as primeiras sessões de Off The Wall, com Quincy Jones e Bruce Swedien, ao último trabalho dele, o lema continuou  o mesmo: música primeiro.


A música que resultava era de alta qualidade, na verdade. É também muito mais diversa que os ouvintes de música comum percebem. Além do funk, R&B, rock, soul, jazz e disco, ele, também, experimentou clássicos, Brodway, gospel, latina, hip-hop, eletrônica e industrial, entre muitos outros estilos. Jackson, muitas vezes, foi criticado pelo ecletismo dele, com pessoas alegando que ele estava simplesmente alvejando índices demográficos, mas ele se defendeu alegando que a música não tem fronteiras. “Eu não coloco música em categorias.” Ele disse em uma entrevista, em 2002: “Música é música... Como nós podemos discriminar?”.


Essa era a filosofia dele e essa era a marca da música e da arte dele. Assim como os Beatles fizeram rock inclusivo o bastante para ter elementos do folk, blues, psicodélico, música oriental e clássica, Jackson fez um “pop”, multigênero, um negócio multimídia, que foi sem limites na variedade de sons, estilos e possibilidades.



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